O FMV, a Saab e a tecnologia do MCMV

No início da década de 60, a Marinha Sueca recorreu à Administração de Materiais de Defesa da Suécia (FMV, do sueco Försvarets materielverk) para que encontrassem um novo material para a construção de navios caça-minas que fosse ainda mais resistente e com manutenção mais econômica. Às empresas suecas de defesa, foi dada a missão de desenvolver um material que fosse resistente aos efeitos de corrosão, degradação e invisível aos radares.

O chefe de sistemas de mergulho e resgate submarino do FMV, Mattias Styrhagen e o executivo sênior de vendas e marketing da Saab, Robert Petersson nos contaram mais detalhes sobre essa história.

Com o desafio em mãos, o estaleiro Kockums, localizado na cidade de Karlskrona, na Suécia, produziu pequenos iates a vela, durante mais de uma década, apostando em novas tecnologias, com uma série de tentativas e erros. Até que, em 1974, Kockums apresentou o primeiro navio que serviria de plataforma de testes da Marinha Sueca, o caça-minas Viksten. Após anos de testes, a Marinha Sueca confirmou que o novo material era ideal para a proposta do programa M80, de desenvolvimento do novo navio de Contramedida de Minagem (do inglês Mine Countermeasures Vessel – MCMV) da Suécia que, mais tarde, seria conhecida como classe Landsort.

Como o FMV atua e de que forma apoia o governo e as forças armadas da Suécia?

Mattias: A Administração de Materiais de Defesa da Suécia, conhecido como FMV, e o governo sueco têm a missão de levar a indústria de defesa ao limite no que diz respeito ao desenvolvimento de produtos de altíssima qualidade em um tempo relativamente curto. O FMV dá suporte às forças armadas suecas para que elas possam adquirir equipamentos militares dos mais inovadores possível desenvolvidos principalmente por empresas suecas.

O FMV tem um enorme conhecimento técnico e uma equipe bastante preparada composta por pesquisadores, engenheiros, além de outros especialistas. Esse time apoia as forças armadas e outras instituições, como Guarda Costeira e Polícia, e os auxiliam na aquisição das melhores soluções para cada necessidade. Por conta disso, interagimos com as forças armadas, as universidades, a indústria e o governo para que todos trabalhem juntos por um objetivo comum: fomentar a inovação e desenvolver os materiais mais tecnológicos possíveis.

Qual foi a principal necessidade consideradas pelo FMV para o desenvolvimento de um produto mais resistente para os navios caça-minas?

Mattias: A demanda veio da Marinha Sueca que estava buscando um material resistente e econômico. A partir daí o FMV deu início às pesquisas e a busca por um novo material que fosse capaz de substituir os antigos cascos de madeira utilizados nos navios caça-minas tradicional. Apesar de a madeira ser amagnética e consideravelmente resistente a explosão de minas sem que o casco fosse danificado, os custos de construção e manutenção eram altos. O FMV passou a  considerar um novo material composto por plástico reforçado com fibra de vidro (GRP), em uma configuração de dupla camada separada por um material leve de núcleo de espuma, o chamado princípio sanduíche. Este seria o material ideal para substituir os custosos e antigos cascos de madeira.

Foi a partir dessa solicitação que a Saab começou a desenvolver material compósito para outros navios de caça-minas?

Mattias: Foi a partir da corveta Visby que a indústria notou a necessidade de substituir o casco de madeira pelo casco à base de fibra de carbono, e isso era relativamente novo. Sozinha, a indústria de defesa não se arriscaria em adotar um novo design só porque a Marinha gostaria de reduzir custos de construção e manutenção. Essa mudança é bastante arriscada para ser realizada sem suporte do governo, das forças armadas e do FMV. Mas, com o apoio do FMV, por exemplo, as empresas ficam cobertas para desenvolver produtos que a Marinha necessita.

Após inúmeras pesquisas, a Saab indicou que o único caminho para atingir os objetivos esperados pela Marinha seria o de adotar um material a base de fibra de carbono. O FMV e o governo garantiram que, se a Saab atendesse às expectativas da Marinha Sueca, o produto seria comprado. E foi exatamente assim que aconteceu.

Aquilo que é desenvolvido pelas empresas suecas, passa a ser propriedade intelectual de quem? Empresa, FMV, governo ou forças armadas?

Mattias: Os projetos que chegam ao FMV são muito estratégicos para o governo e para as forças armadas. Asseguramos que essas competências serão preservadas dentro da Suécia quando consumimos produtos da nossa própria indústria de defesa, garantindo que ela tenha, também, um fluxo de caixa saudável. Podemos dizer que o FMV é uma espécie de backup que acompanha os projetos para assegurar que as soluções em desenvolvimento estejam tomando o caminho certo, dentro das expectativas das forças armadas. O FMV é detentor dos direitos de propriedade intelectual do produto. Por exemplo, a Kockums desenvolve e produz um determinado material, em parceria com o FMV, para a Marinha Sueca, mas este produto é de propriedade sueca. O estaleiro pode utilizar essa solução e negociar com quem quiser, desde que o governo permita e entenda que o país que receberá o produto se trata de uma nação amiga e de confiança.

Qual é a principal tarefa do MCMV? Sua única missão é de localizar e neutralizar minas submarinas?

Robert: Um navio de Contramedida de Minagem (MCMV) é um produto considerado multipropósito, ou seja, ele é capaz de atuar em diversos cenários. A principal tarefa de um MCMV é proteger, primeiramente, os ativos das próprias marinhas, como submarinos AIP da classe Gotland da Suécia, o novo Riachuelo da Marinha do Brasil, ou um submarino nuclear. Nenhum país pode se dar ao luxo de perder um submarino desse porte. Há um ditado referente à atuação do MCMV que diz “Onde a Esquadra for, nós (com o navio caça-minas) já estivemos”. A outra missão fundamental é manter os portos livres para o tráfego comercial de bens, alimentos ou até produtos petrolíferos, por exemplo.

O MCMV está preparado para atuar em qual tipo de cenário?

Robert: O MCMV é uma solução completa para atuar em diversos cenários. O conceito “tool box”, que em português significa caixa de ferramentas, é o conceito mais adequado para caracterizar o MCMV. O navio está preparado para executar missões considerando as diferentes condições subaquáticas, topográfica ou de fundo do mar. Por conta das condições da água, incluindo a salinidade, a temperatura e a forma que a velocidade do som é propagada, podem ser criadas camadas que impedem de o sonar “enxergar” possíveis ameaças submerças. Ou seja, não existe uma solução única para essas ameaças, por isso, muitas vezes é necessário contar com diferentes ferramentas capazes de identificar ou destruir minas, dependendo das condições do ambiente.

Ou seja não existe uma solução única para para essas ameaças, portanto, muitas vezes é necessário ter ferramentas diferentes capazes de identificar objetos ou destruir minas, dependendo das condições do ambiente.

Como o Brasil e a região da América Latina pode aproveitar tudo o que o MCMV tem a oferecer?

Robert: O Brasil, assim como toda a América Latina, tem um litoral bastante extenso e com complexidades. Considerando que a importação e a exportação de mercadorias realizadas por vias marítimas são importantes para a economia e o bem-estar de um país, é fundamental considerar proteger esses portos e linhas de comunicação marítimas. Mas não só isso. Um país como o Brasil, com uma Marinha de grande respeito, um litoral extenso e com tantos ativos, não apenas militares, mas também ambientais, pode utilizar esses navios para proteção de riquezas naturais.