Entrevista com Emb. José Estanislau do A. Souza Neto

O Instituto Rio Branco, criado em 1945, é uma instituição relativamente longeva em um país jovem como o Brasil. Braço do Itamaraty criado para recrutar, formar e treinar diplomatas, o Instituto promove anualmente os disputados concursos públicos que irão selecionar os profissionais mais aptos a desenvolver carreiras diplomáticas. Nessa edição do Defesa em Foco, o embaixador José Estanislau do Amaral Souza Neto, diretor geral do Instituto Rio Branco, explica porque o tema “Defesa, Segurança e Política Externa” entrou para a grade curricular do curso de formação de diplomatas brasileiros.

 

D em F: Por que o Instituto Rio Branco decidiu incluir a disciplina “Defesa, Segurança e Política Externa” em sua grade curricular?

Emb. José Estanislau do A. Souza Neto: Assumi o Instituto em outubro de 2016. Uma das primeiras coisas que percebi, por meio das conversas com os alunos e os professores, foi a existência de algumas lacunas e de sobreposição de matérias no curso. Daí a necessidade de repensá-lo, visando uma coerência interna maior. Reequilibramos a grade de disciplinas com três preocupações: equilibrar teoria e prática; dar mais ênfase à política e à economia internacional; e capacitar os alunos para que eles pudessem não só explicar o Brasil para o mundo, mas também traduzir o mundo para o Brasil. Ambas são dimensões complementares e inseparáveis do fazer diplomático. Além de termos eliminado ou introduzido algumas matérias, outras passaram a ter duração maior, passando de um para dois semestres.

Uma das matérias novas é justamente “Defesa, Segurança e Política Externa. O professor encarregado da disciplina atua no Ministério da Defesa e está trazendo palestrantes para as aulas, que irão mostrar como as Forças Armadas trabalham e estão organizadas, aproximando os funcionários militares dos diplomáticos. No que se refere à cooperação com o Ministério da Defesa, também vamos retomar uma prática: os alunos do Rio Branco que se formam agora irão fazer uma viagem de dez dias, organizada pelo Ministério da Defesa, para que possam conhecer as três academias militares, o polo industrial de defesa em São José dos Campos e os treinamentos nos postos militares de fronteira da Amazônia.

 

D em F: Como esses temas serão desenvolvidos e o que se espera em termos de formação?

Emb. José Estanislau do A. Souza Neto: A disciplina é de um semestre e já começou a ser ministrada em janeiro desse ano. Os alunos têm apreciado bastante o contato com especialistas de fora, que falam sobre as correntes teóricas da Defesa, as instituições brasileiras e internacionais de Defesa, e os conflitos mundiais atuais. O que se espera é que esses alunos tenham uma visão integrada da defesa e da segurança externa. Evidentemente, como o curso é relativamente curto, o que se espera é que eles tenham uma visão introdutória, que possa despertar o olhar para o assunto.

 

D em F: Quais são as potenciais ameaças que o Brasil pode enfrentar em termos globais e na América Latina? O país é apto a enfrentá-las diplomaticamente?

Emb. José Estanislau do A. Souza Neto: O Brasil é conhecido por ser um país livre de conflitos externos e por ter uma situação de paz com todos os seus dez vizinhos, com os quais não têm problemas de fronteiras. O Brasil tem uma vocação pacífica e suas instituições de defesa são voltadas essencialmente para a proteção, não têm uma característica ofensiva. Dito isso, evidentemente que o país está sujeito a ameaças como as do crime organizado, do controle do tráfico de drogas, de lavagem de dinheiro, do tráfico de pessoas e do próprio terrorismo. Mas essas ameaças, que afetam a nós e ao resto do mundo, não são ameaças à soberania nacional. Não devem levar a um conflito externo.

 

D em F: O país está preparado para fazer frente a essas potenciais ameaças?

Emb. José Estanislau do A. Souza Neto: As Forças Armadas brasileiras são preparadas e profissionais. Estão à altura dos desafios de segurança. Porém, o que vale, para o Brasil e para qualquer nação, é que todo o preparo é pouco para enfrentar as ameaças, que normalmente usam o elemento surpresa a seu favor, e sempre podem surpreender.

 

D em F: Como o país se posiciona frente à crise migratória em curso? Essa pode ser mais uma vulnerabilidade?

Emb. José Estanislau do A. Souza Neto: O Brasil é um país de imigrantes, cuja população se formou por gente de diferentes partes do mundo. Mas, hoje em dia, curiosamente, o percentual de estrangeiros que vive no Brasil é bastante baixo em relação à população brasileira. Não vejo como o fluxo de imigrantes possa constituir uma ameaça nacional. Nunca será em grande escala, porque o país não é alvo preferencial dos imigrantes em outras partes do mundo. Além disso, uma política humanitária adequada indicaria que o Brasil deveria, em princípio, acolher vítimas inocentes de conflitos ou de situações de emergência.

 

D em F: O Brasil tem condições de desempenhar um papel decisivo no cenário de segurança na América Latina?

Emb. José Estanislau do A. Souza Neto: Evidentemente. Sem a menor dúvida. O Brasil é a metade do território da América do Sul e, sem a sua participação, não há a menor possibilidade de haver estabilidade e segurança.

As opiniões contidas nesta publicação não refletem necessariamente a opinião da Saab do Brasil e da Saab AB.