A mulher no mercado de Defesa brasileiro

O mercado de Defesa, ainda hoje, é considerado por muitos como majoritariamente masculino. Para quebrar esse paradigma e entender um pouco mais deste universo, conversamos com a Contra-Almirante Luciana Mascarenhas da Costa Marroni e com a Marianna Silva, diretora geral da Saab do Brasil. As duas contam um pouco sobre suas experiências no trabalho e os principais desafios diários.

Luciana Mascarenhas da Costa Marroni é a primeira mulher engenheira a alcançar o generalato no Brasil. Formada em Engenharia Eletrônica pela UFRJ, hoje está à frente da Diretoria de Comunicações e Tecnologia da Informação da Marinha (DCTIM), que é a Organização Militar que responde a praticamente todos os canais de comunicação da Força.

Como é ser a primeira mulher a liderar uma Diretoria Especializada como essa na Marinha do Brasil? Atualmente, quantas pessoas estão sob sua gestão?
São 150 militares servindo na DCTIM, entre oficiais, praças e servidores civis. A diretoria tem um centro subordinado, o Centro de Tecnologia da Informação da Marinha (CTIM).  Ser titular de uma Organização Militar, seja ela qual for, envolve muita responsabilidade e dedicação. Ter que responder por recursos públicos, tomar decisões que envolvem bastante complexidade, gerir pessoas com realidades totalmente diferentes umas das outras e cumprir com excelência a missão para a qual fomos designados certamente é um grande desafio, independentemente de ser homem ou mulher. Quanto a isso, busco sempre dar o meu melhor e, assim, traçar as melhores estratégias para alcançar os objetivos apresentados, alinhando-as às diretrizes da nossa Força.

Como é o seu trabalho na DCTIM? Quais as atividades desenvolvidas, a sua atuação, funções e desafios?
A Diretoria de Comunicações e Tecnologia da Informação da Marinha (DCTIM) é a Organização Militar (OM) que responde por praticamente todos os canais de comunicação da Força. Tem como missão prover toda a estrutura de Comunicações e Tecnologia da Informação (TI) para que a Marinha do Brasil (MB) consiga se comunicar, seja no mar com os navios, no ar com as aeronaves da Força Aeronaval, ou em terra, com a Força de Fuzileiros Navais e com as OM administrativas. Assim, cabe à DCTIM, com o apoio de diversas outras OMs, tornar essa comunicação integrada, confiável, segura, rápida e flexível.

Como a sua formação em Engenharia Eletrônica contribui para essa função?
A minha formação acadêmica foi na Universidade Federal do rio de Janeiro (UFRJ) e contou com excelentes professores e foi fundamental no início da caminhada. Todo o conjunto de conhecimento teórico obtido durante a graduação serviu como alicerce para que eu fosse, pouco a pouco, desenvolvendo minhas habilidades frente às experiências práticas que surgiram ao longo da carreira. Em determinado momento, eu me vi sentada na cadeira de Superintendente de Comunicações na DCTIM, o que me leva a ter mais segurança e tranquilidade hoje como diretora.

Quando ingressou na instituição, como era o cenário em relação à participação de mulheres na Marinha? O que mudou desde então?
Quando ingressei na Marinha, não havia a possibilidade de as mulheres integrarem o quadro específico de sua profissão, havia somente o CAFRM que, criado em 1980, era dividido apenas entre o Quadro de Oficiais e o Quadro de Praças. Apenas em 1997, com a reestruturação de Corpos e Quadros, é que as mulheres passaram a integrar os mesmos quadros que os homens, tendo as mesmas oportunidades de carreira. Assim, passei a integrar o Corpo de Engenheiros da Marinha (CEM), o que me abriu a possibilidade de alcançar o generalato.  A promoção da Contra-Almirante Dalva em 2012 foi, sem dúvida, um grande marco na história das mulheres nas Forças Armadas do país, servindo de exemplo e motivação para mim e para outras mulheres.

Qual o legado que gostaria de deixar para as próximas gerações da Marinha do Brasil – homens e mulheres?
Creio que o maior legado que posso deixar é a consolidação da conquista feminina em cargos de alta administração das FFAA. Sigo determinada a fazer um bom trabalho, dando continuidade ao que foi feito até aqui. Não é necessário ser o melhor sempre, mas que sempre se esforcem para tal. Assim fiz durante toda a minha vida. Me preparei para aproveitar ao máximo todas as oportunidades que se apresentaram. Quando ingressei na Marinha não tinha a aspiração de ascender ao generalato, porque, na verdade, ainda não havia essa possibilidade, mas as coisas mudaram e eu estava preparada.

Em que momento vislumbrou ingressar na carreira militar? Qual era a sua visão em relação a ela e porque a opção pela Marinha do Brasil?
Na verdade, só quando meu irmão ingressou para o Corpo de Saúde da Marinha é que vislumbrei a possibilidade de ingressar também. Por ter certa familiaridade com a vida militar – pois meu avô foi General do Exército -, e por achar a carreira desafiadora e repleta de oportunidades de crescimento técnico-profissional, fiquei interessada. Acabei me inscrevendo no concurso e tive a felicidade de ser aprovada já na primeira tentativa.

Ser a segunda mulher no posto de Almirante é um grande marco. O que isso representa em sua vida e quais os grandes desafios, em sua visão?
Cada degrau que subimos na careira certamente nos traz mais responsabilidades e desafios, isso acontece em qualquer profissão, com homens e mulheres. O Oficial General toma decisões e assume todas as consequências delas advindas, além de prestar assessoria em nível estratégico à alta Administração Naval. Acredito que a conquista mais importante foi lá atrás, quando conseguimos mudar a lei em 1997, derrubando o entrave jurídico que efetivamente inviabilizava a igualdade de oportunidades. O marco foi em 2012, quando a Contra-Almirante Médica Dalva foi promovida, deixando claro que, sim, era possível. O meu desafio é manter o grau de excelência do trabalho que executo para reafirmar o acerto da decisão da Marinha e manter o caminho aberto para as próximas oficiais que aspiram ao generalato.

 

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Marianna Silva é diretora geral da Saab do Brasil. Formada em Hotelaria na Suíça, atua na companhia desde 2013. Dentro da empresa, é responsável por supervisionar os negócios e atividades, coordenar a equipe, implementar estratégias, definir políticas internas e impulsionar o crescimento da empresa no país.

Quais são os desafios de liderar uma companhia da indústria de Defesa?
Temos o papel de liderar a empresa para o melhor caminho e, para isso, é preciso contar com os talentos que compõem a organização. Nossa equipe é composta por civis e militares da reserva, e esta interação, por si só, já é interessante. A troca de experiências é fundamental. Temos uma gestão aberta ao diálogo, que prega a diversidade por meio da integração entre todos, incluindo gerações, gêneros e outros aspectos que são fundamentais para a sustentabilidade dos negócios. Acredito que tenho e ainda terei muitos desafios pela frente e estou muito feliz por ter a oportunidade de enfrentá-los.

Como é o seu trabalho na diretoria geral da Saab do Brasil, uma das maiores empresas de Defesa e Segurança do mundo?
Estou à frente da equipe de vendas da Saab do Brasil e cumpro as funções convencionais de um gerente geral: supervisionar os negócios e atividades, coordenar a equipe, preparar o budget, implementar a estratégia, definir políticas internas, comunicar sobre o negócio e junto com um time, auxiliar no crescimento da empresa no Brasil.

No início da sua carreira, quais eram seus objetivos e perspectivas? Como foi a sua trajetória até chegar à direção da Saab do Brasil?
Eu sempre acreditei que dependia de mim, do meu esforço e de muitas horas de trabalho e perseverança. Sou formada em hotelaria na Suíça, e meu foco sempre foi a excelência em qualquer tipo de entrega. Depois de anos abrindo hotéis ao redor do mundo, queria algo diferente e fui trabalhar em uma organização semigovernamental, auxiliando empresas suecas a expandirem seus negócios no Brasil. Foi uma experiência fantástica, cada ano eu aprendia sobre um tipo de indústria. Mas sempre tive um carinho especial pela Saab, porque a área de Defesa sempre foi uma curiosidade. Todas as vezes em que eu assistia às apresentações do Bengt Janér, que foi uma das primeiras pessoas a apresentar a Saab no mercado brasileiro, eu ficava fascinada. Depois conheci o diretor da empresa que cuidava da América Latina, Bo Torrestedt. Ele me convidou para auxiliar a companhia a crescer no Brasil junto com o gerente geral da companhia no país. Quando o gerente geral da empresa retornou para a Suécia, participei do processo seletivo e fui escolhida para o cargo.

A Saab é uma empresa que busca igualdade de gênero? De que forma?
Sim, a Saab tem um objetivo de ter 25% de mulheres no quadro de funcionários até 2025, aliado a 30% da liderança composta pelo gênero feminino. Temos evoluído muito: em 2019 atingimos 23% e 25% respectivamente. Isso faz parte da meta de diversidade, que inclui não só a diversidade de gênero, mas também de idade, de origem, de credo e cultura. Acreditamos que a diversidade contribui muito para a inovação – uma vez que trazemos muitos pontos de vista diferentes e podemos chegar a soluções muito mais criativas e eficientes.

Qual é a sua grande referência de liderança?
Meu pai é meu grande exemplo – ele me ensinou a ter disciplina e a olhar nos olhos das pessoas desde pequena. Ele sempre me incentivou a me colocar no lugar das outras pessoas, independentemente da situação, a zelar pelo meu nome em todas as circunstâncias e ainda a ajudar a todos. Assim como ele, acredito na lei do retorno.

De acordo com a sua experiência, acredita que o mercado tem sido aberto à entrada e participação de mulheres em posições de liderança?
Há muitas mulheres trabalhando em posições de liderança e na área de Defesa também.

Qual o recado que gostaria de deixar para quem está ingressando no mercado de Defesa e pretende seguir nessa área?
O maior desafio de um profissional é não perder o poder de reinvenção, a confiança na intuição, visão de futuro e perseverança. A área de Defesa é um mercado fascinante onde nem sempre conseguimos prever os acontecimentos.